Artigos sobre “Teodicéia”; Deus e a existência do Mal

Teodiceia é um ramo da teologia que trata da coexistência de um Deus todo-poderoso de bondade infinita com o mal.

O termo teodiceia provém do grego θεός – theós, “Deus” e δίκη – díkē, “justiça”, que significa, literalmente, “justiça de Deus”. O termo foi criado em 1710 pelo filósofo Alemão Gottfried Leibniz num trabalho intitulado Essais de Théodicée sur la bonté de Dieu, la liberté de l’homme et l’origine du mal. O propósito do ensaio era demonstrar que a presença do mal no mundo não entra em conflito com a bondade de Deus — ou seja, não obstante as diversas manifestações de iniqüidade no Mundo, este é o melhor dos mundos possíveis (ver Panglossianismo.)

A teodiceia é a parte da Filosofia que pretende demonstrar racionalmente a existência e os atributos de Deus. Para isso, usa apenas a razão humana, sem utilizar nenhum registro sagrado.

Prevê que existe um Deus que nos dá livre-arbítrio, ou seja, opção de escolha. As escolhas, porém, não sendo feitas com responsabilidade, conduzem o homem ao mal natural ou o mal moral.

Seguem abaixo alguns artigos sobre o assunto:

Esta é uma explanação sobre o problema do mal. O conjunto das asseverações é um compêndio de algumas idéias de pessoas que se preocuparam com tal questão. Algumas idéias são próprias, e a conclusão também. A questão é fundamentalmente filosófica e sujeita à análises.
O ponto de partida fundamental é: Como pode haver o ´mal´ se Deus existe, sendo Todo-Poderoso e Todo-Bondoso, ou, conforme Hume citando Epicuro: “Estaria Deus querendo impedir o mal sem ser capaz de fazê-lo? Então ele é impotente. Ele é capaz, mas não está disposto? Então ele é malévolo. Ele é tanto capaz quanto está disposto? Então de onde vem o mal?” (Dialogues concerning natural religion, parte 10).
A questão é, por si só, evasiva e extremamente complexa. Uma das últimas fronteiras da metafísica cristã. Contudo, antes de nossa explanação é importante lembrar-mos de que esta esfera de existência tem como propósito um ensino, um aperfeiçoamento à outra esfera, eterna e imutável, na qual não necessitaremos do mesmo que necessitamos aqui, nesta vida (eis o contexto escatológico do NT).
O plano de Deus envolve o início, nesta existência com o conhecimento do mal. Deus sabia que o homem iria querer conhecer o bem e o mal através da árvore que ele tinha plantado.
O plano de Deus, portanto, precisa ser compreendido para que possamos versar qualquer coisa sobre o problema do mal no cosmos.
Neste plano, observe, nem todos poderiam ser determinados à salvação, pois Deus teria determinado um mundo completamente isento da possibilidade de escolhas, o que faria de tal mundo algo MENOR do que o melhor mundo possível, que é este, com arbítrio.
Sem arbítrio é impossível “amarmos”, o que é o bem maior. Tudo que não permite o bem maior é o mal maior. Tendo isto em mente, vejamos:
1. Somos seres ´contingentes´, isto é, ´não necessários´.
2. Se somos seres contingentes, somos reais, existimos e necessariamente carecemos de alguém ou alguma coisa que nos tenha criado.
3. ´Nada´não pode causar algo.
4. Um Ser Necessário não pode criar outro Ser Necessário pois, se criasse, tal ser seria “contingente” e não “necessário”.
5. O Ser Necessário (Deus) revelou-se Todo-Poderoso (Ml. 4:8) portanto, perfeito. (*)
6. Se Deus é Todo-Poderoso (perfeito) e Todo-Bondoso (amor) pôde criar o Cosmos no qual prevalecesse o bem maior. Este mundo é o nosso, e foi dado ao homem. Requeria arbítrio.
7. Adão (e a raça humana) preferiu o mal (possível, e posteriromente ´real´, com a Queda).
8. Deus relaciona-se diretamente com o bem maior, e impedir o mal seria impedir escolhas (arbítrio), que por sua vez implicaria em impedir o amor, sendo assim o “mal maior”.
9. Deus quer que recebamos e sintamos plenamente o seu amor (Jd. 21; 1 Jo. 5:20).
10. Para sentirmos o amor (bem maior) plenamente este mundo precisará ser aniquilado e criada outra realidade, na qual o arbítrio seja possível mas não necessário.
11. E isto é exatamente o que nos dizem as Escrituras acerca do fim, do tempo da remissão: Ap. 21:1-2, 23:3. Aqui, como o bem maior é pleno, o arbítrio não será necessário, e o mal ´impossível´. Isto explica o termo: “Ali jamais haverá maldição” (Ap. 22:3).
Este é o fundamento da Teodicéia (justiça de Deus) na filosofia cristã. Como disse, sujeita a análises.
(*) NOTA: Os hebreus falavam sobre um Deus único antes do que qualquer outro povo no mundo. A cronologia para os primeiros escritos monoteístas hebraicos provém do século XV a.C. A revolução monoteísta de Akhenaton, faraó que impôs a adoração a Aton (deus sol) acontece cerca de 100 anos depois de Moisés. O monoteísmo é fundamental para a filosofia cristã bíblica que preocupa-se com Teodicéia.
Por Pr. Artur Eduardo
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Teodicéia – Um texto de Ed René Kivitz.

Acho que Epicuro foi quem formulou a questão a respeito da relação
entre a onipotência e a bondade de Deus. A coisa é mais ou menos
assim: se Deus existe, ele é todo poderoso e é bom, pois não fosse
todo-poderoso, não seria Deus, e não fosse bom, não seria digno de
ser Deus. Mas se Deus é todo-poderoso e bom, então como explicar
tanto sofrimento no mundo? Caso Deus seja todo-poderoso, então ele
pode evitar o sofrimento, e se não o faz, é porque não é bom, e
nesse caso, não é digno de ser Deus. Mas caso seja bom e queira
evitar o sofrimento, e não o faz porque não consegue, então ele não
é todo-poderoso, e nesse caso, também não é Deus. Escrevendo
sobre a Tsunami que abalou a Ásia, o Frei Leonardo Boff resume: “Se
Deus é onipotente, pode tudo. Se pode tudo porque não evitou o
maremoto? Se não o evitou, é sinal de que ou não é onipotente ou
não é bom”.
Considerando, portanto, que não é possível que Deus seja ao mesmo
tempo bom e todo-poderoso, a lógica é que Deus é uma
impossibilidade filosófica, ou se preferir, a idéia de Deus não faz
sentido, e o melhor que temos a fazer é admitir que Deus não existe.
Parece que estamos diante de um dilema insolúvel. Mas Einstein nos
deu uma dica preciosa. Disse que quando chegamos a um “problema
insolúvel”, devemos mudar o paradigma de pensamento que o criou.
O paradigma de pensamento que considera o binômio
“onipotência/bondade” como ponto de partida para pensar o caráter
de Deus nos deixa em apuros. Existiria, entretanto, outro paradigma
de pensamento? Será que as palavras “onipotência” e “bondade” são
as que melhor resumem o dilema de Deus diante do mal e do
sofrimento do inocente? Há outras palavras que podem ser colocadas
neste quebra-cabeça?
Este problema foi enfrentado por São Paulo, apóstolo, em seu debate
com os filósofos gregos de seu tempo. A mensagem cristã era muito
simples: Deus veio ao mundo e morreu crucificado. Pior do que isso:
Deus foi crucificado num “jogo de empurra” entre judeus e romanos,
isto é, diferentemente dos outros deuses, o Deus cristão foi morto
não por deuses mais poderosos, mas por homens. Sendo Deus,
jamais poderia ser morto por mãos humanas, e sendo o Deus
onipotente, jamais poderia nem mesmo ser morto. Paulo, apóstolo,
estava, portanto, diante de um dilema semelhante ao proposto por
Epicuro: Deus era uma impossibilidade filosófica.
Foi então que os apóstolos surgiram com uma resposta tão genial que
os cristãos acreditamos que foi soprada pelo Espírito Santo: antes de
vir ao mundo ao encontro dos homens, Deus se esvaziou da sua
onipotência[i], isto é, abriu mão do exercício de sua onipotência, e
por amor[ii], deixou-se matar por eles[iii]. (Eu disse que “Deus
abriu mão do exercício de sua onipotência”, bem diferente de “Deus
abriu mão de sua onipotência”).
O apóstolo Paulo admitia que não era possível pensar em Deus sem
considerar o binômio bondade/onipotência. Optou pela palavra amor,
assim como o apóstolo João, que afirmou “Deus é amor”[iv]. Jesus
de Nazaré foi Deus encarnado na forma de Amor, e não Deus
encarnado na forma de Onipotência.
Isso faz todo o sentido. Um Deus que viesse ao encontro das pessoas
em trajes onipotentes chegaria para se impor e reivindicar obediência
irrestrita, impressionando pela sua majestade e força sem iguais.
Jung Mo Sung adverte que “a contrapartida do poder é a obediência,
enquanto a contrapartida do amor é a liberdade”. Também assim
pensou o apóstolo Paulo, ao afirmar que o que constrange as pessoas
a viver para Deus é o amor de Deus (demonstrado na morte de Jesus
na cruz)[v], e nunca o poder de Deus.
Na verdade, “Deus não tinha escolha”. Ao decidir criar o ser humano
à sua imagem e semelhança, deveria criá-lo livre. Desejando um
relacionamento com o ser humano, deveria dar ao ser humano a
liberdade de responder voluntariamente ao seu amor, sob pena de
ser um tirano que arrasta para sua alcova uma donzela contrariada.
Somente o amor resolveria esta equação, pois somente o amor dá
liberdade para que o outro seja livre, inclusive para rejeitar o amor
que se lhe quer dar.
André Comte-Sponville é um ateu confesso (sei que vou levar
pedradas) que discorre a respeito do amor divino como poucos que já
li. Acredita que o amor divino é um ato de diminuição, uma fraqueza,
uma renúncia. Usa os argumentos de Simone Weil: “a criação é da
parte de Deus um ato não de expansão de si, mas de retirada, de
renúncia. Deus e todas as criaturas é menos do que Deus sozinho.
Deus aceitou essa diminuição. Esvaziou de si uma parte do ser.
Esvaziou-se já nesse ato de sua divindade. É por isso que João diz
que o Cordeiro foi degolado já na constituição do mundo. Deus
permitiu que existissem coisas diferentes Dele e valendo
infinitamente menos que Ele. Pelo ato criador negou a si mesmo,
como Cristo nos prescreveu nos negarmos a nós mesmos. Deus
negou-se em nosso favor para nos dar a possibilidade de nos negar
por Ele. As religiões que conceberam essa renúncia, essa distância
voluntária, esse apagamento voluntário de Deus, sua ausência
aparente e sua presença secreta aqui embaixo, essas religiões são a
verdadeira religião, a tradução em diferentes línguas da grande
Revelação. As religiões que representam a divindade como
comandando em toda parte onde tenha o poder de fazê-lo são falsas.
Mesmo que monoteístas, são idólatras” [vi].
Você já imagina onde quero chegar. Isso mesmo, entre a onipotência
e a bondade de Deus existe a liberdade do homem, e o compromisso
de Deus em respeitar esta liberdade. Isso ajuda a entender porque
existe tanto sofrimento no mundo. O mal não procede de Deus e não
é promovido ou determinado por Deus. O mal é conseqüência
inevitável da liberdade humana, que teima em dar as costas para
Deus e tentar fazer o mundo acontecer à sua própria maneira. Diante
do mal e do sofrimento, o Deus com os homens, encarnado em Amor,
também sofre, se compadece, tem suas entranhas movidas de
compaixão[vii].
Mas você poderia perguntar por que razão Deus não acaba com o
mal. Isso é simples: Deus não acaba com o mal porque o mal não
existe, o que existe é o malvado. O mal não é uma entidade ao lado
de Deus. O mal é o resultado de uma ação humana em afastar-se do
Deus, sumo bem. O monoteísmo cristão afirma que há um só Deus, e
que o mal é a privação da presença de Deus. Os cristãos não somos
dualistas que postulamos a existência do bem e do mal. O mal é
apenas a ausência do bem. Por isso, o mal não existe, o que existe é
o malvado, aquele que faz surgir o mal porque se afasta de Deus, o
supremo e único bem.
Ariovaldo Ramos me ensinou assim, e completou dizendo que “para
acabar com o mal, Deus teria que acabar com o malvado”. Mas,
sendo amor, entre acabar com o malvado e redimir o malvado, Deus
escolheu sofrer enquanto redime, para não negar a si mesmo
destruindo o objeto do seu amor. Por esta razão Deus “se diminui”,
esvazia-se de sua onipotência, abre mão de se relacionar em termos
de onipotência-obediência, e se relaciona com a humanidade com
base no amor, fazendo nascer o sol sobre justos e injustos[viii], e
mostrando sua bondade, dando chuva do céu e colheitas no tempo
certo, concedendo sustento com fartura e um coração cheio de
alegria a todos os homens[ix].
É uma pena que Epicuro não tenha lido os apóstolos cristãos, e nem
tenha assistido às aulas de Jung Mo Sung.
____________________
[i] Carta aos Filipenses 2.6-8
[ii] Evangelho de João 3.16
[iii] Atos dos Apóstolos 2.23
[iv] Primeira Carta de João 4.7
[v] 2Coríntios 5.14,15
[vi] Comte-Sponville, André, Pequeno tratado das grandes virtudes,
São Paulo: Martins Fontes, 1995, Capítulo 18: Amor.
[vii] Evangelho de São Mateus 9.36; 14.14
[viii] Evangelho de São Mateus 5.44,45
[ix] Atos dos Apóstolos 14.17
Uma colaboração de ÁLVARO DE AMORIM GARCIA XIMENES

A Existência do Mal
Autor: Pr. Luis A.T. Sayão

Se Deus é bom, por que existe o mal?
Talvez você já ouviu falar do “Problema do Mal”. A expressão se refere à mais difícil pergunta da história da teologia cristã: Se Deus é onipotente e bondade, por que ele permite a existência do mal e do sofrimento? Afinal, o que quer a expressão “Problema do Mal”? Antes de tudo, é importante reconhecermos que o mal não é necessariamente um problema no sentido filosófico do termo. O conceito de problema pode ser invertido aqui. Por exemplo, uma perspectiva pessimista e ateísta que afirma a realidade do mal como experiência básica da realidade e nega o divino e o bem, teria de enfrentar o “problema do bem”. Explicando melhor: “se o universo não tem propósito e é absurdo (como sugerem alguns existencialistas ateus, por exemplo), como explicar a experiência do belo, do inefável e do prazer”? Não seria esse um grande problema filosófico? Como disse o famoso biblista autraliano Francis I. Andersen: “A rigor, a desgraça humana, ou o mal em todas as suas formas, é um problema somente para a pessoa que crê num Deus único, onipotente e todo amoroso”. Isso significa que outras religiões e filosofia não enfrentam um dilema, no sentido de terem de explicar a existência do mal. Mesmo assim, o mal ainda permanece um problema para todos os sistemas de pensamento por causa da questão do sofrimento.
A tentativa cristã de lidar com esse tripé “Deus todo-poderoso”, “Deus todo-amoroso” e “existência do mal”, mostrando que a despeito do mal, Deus continua justo, bom e poderoso foi historicamente denominada Teodicéia. A palavra foi cunhada em 1710 pelo filósofo alemão Gottfried Leibnitz (1646-1716). Seu sentido é “justificação de Deus” (do grego theós “Deus” e dikê “justiça”). A dificuldade do problema foi bem definida pelo filósofo escocês David Hume (1711-1776) numa retomada do antigo filósofo grego Epicuro (341-270 a.C.). Conforme escreveu David Hume: “As antigas perguntas de Epicuro permanecem sem resposta. Quer ele (Deus) impedir o mal, mas não é capaz de fazê-lo? Então ele é impotente (i.e, não é onipotente). Pode ele fazê-lo, mas não o deseja? Então ele é malévolo. Não é ele tanto poderoso como o deseja fazê-lo? De onde, pois, procede o mal?
O problema do mal também é discutido e compartilhado pelo judaísmo e islamismo. A importância da discussão na tradição judaica foi expressa por Nachmânides quando se referiu ao problema do mal como “a questão mais difícil que se encontra tanto na raiz da fé quanto da apostasia, com a qual estudiosos de todas as épocas, povos e línguas têm lutado”.
Historicamente, na tentativa de construir-se essa explicação que procura manter a justiça de Deus diante do mal, vários tipos básicos de teodicéia foram elaborados. Os principais tipos respondem ao problema assim:

A Teoria do Livre-arbítrio

É a posição clássica das religiões monoteístas. Ela afirma que Deus permite o mal e o utiliza para fins bons. Deus permite o mal para produzir um bem maior. Nunca foi elaborada solução mais razoável e esperançosa do que a judaico-cristã. Para explicar a origem do mal, afirma-se que o mal sempre seria uma possibilidade, visto que Deus criou seres dotados de vontade livre. E para que fossem de fato livres, e não máquinas, tais seres sempre teriam a possibilidade de optar contra a vontade de Deus, dando assim origem ao mal. Portanto, a única saída para a impossibilidade plena do mal seria a inexistência de seres pessoais livres, o que nos daria um universo mecanicista, composto de seres impessoais, destituídos de arbítrio. Os defensores dessa posição ainda argumentam que Deus apenas permite o mal, o que é diferente de ser autor direto do mal, por razões e finalidades boas que não compreendemos plenamente agora. Evidentemente, a força desses argumentos depende de suas pressuposições. O argumento teísta clássico afirma que o mal pode ter início no bem, embora isto nunca seja de modo essencial. Não há derivação essencial do bem para o mal. Isso é compreensível, pois segundo o teísmo clássico o mal não existe enquanto substância, conforme mostrou Agostinho, ou seja, o mal não possui existência plena. É como a ferrugem que atinge o ferro. Não existe um ferro totalmente enferrujado, pois esse deixaria de existir. Assim como a ferrugem existe em função do ferro como elemento parasita e destruidor, também o mal só existe em função do bem.

A Teoria Pedagógica

Numa teodicéia pedagógica o enfoque é deslocado da origem do mal e é colocado principalmente nos possíveis bons resultados da experiência do sofrimento. A idéia é que a experiência do sofrimento (mal) é um benefício indispensável para o desenvolvimento das capacidades humanas, do contrário a humanidade permaneceria eternamente na infância. Argumenta-se, por exemplo, que um pouco de sofrimento aumenta a nossa própria satisfação com a vida e que um sofrimento maior e mais intenso desenvolve em nós uma maior profundidade de caráter e de compaixão. Além disso esta posição enfatiza a realidade de que vivemos em um mundo regulado por leis naturais e que boa parte do mal existente no mundo decorre da atuação destas leis. Deveria Deus ter criado um mundo desprovido de ordem natural para satisfazer a vontade de cada um? Isso seria bom? Todavia, há duas grandes dificuldades aqui: 1) nem sempre o sofrimento produz maturidade e aprendizado. Muitas vezes o que fica é ódio e amargura; 2) em alguns casos não há muito o que aprender e o preço pago é muito alto. Quando milhares de pessoas morrem em uma guerra, devemos perguntar: que tipo de pedagogia é essa que mata seus próprios alunos?

A Teoria Escatológica

Uma teodicéia escatológica diz que há esperança para o problema, pois ela está baseada na convicção de que a vida transcende a morte e que justiça e injustiça receberão sua devida recompensa. As perspectivas variam desde uma esperança entre o inaugurar de uma nova história humana por meio da ressurreição ou ainda como uma vida em um reino celestial após a morte. O futuro tem a resposta e a solução do que acontece no presente. Apesar de essa ser uma das esperanças mais enfatizadas pelas religiões monoteístas, muitos descartam esta possibilidade e questionam que tipo de reparação pode haver pela desgraça atual. Alguém que teve sua família arruinada e assassinada repentinamente pode de fato ter tal sofrimento “reparado”? Será possível isso?

A Teoria da Teodicéia Protelada

É uma postura de expectativa e fé em Deus a despeito do mal. A fé na soberania e bondade finais de Deus espera a compreensão de todas as questões. A diferença entre essa teodicéia e a teodicéia escatológica é a seguinte: na teodicéia protelada espera-se mais uma compreensão do que uma compensação final do mal. Argumenta-se que as limitações humanas e a tremenda distância que separa Deus do homem não nos permitem conhecer as razões da permissão do mal agora. Deve-se destacar ainda que tal posição também é diferente da idéia que sugere ser impossível avaliar o comportamento de Deus.

A Teoria da Teodicéia de Comunhão

Para muitos, a experiência do sofrimento leva o homem a encontrar motivos para romper com o divino. Essa é, por exemplo, a fonte do ateísmo, do agnosticismo e do antagonismo religioso. A Teodicéia de Comunhão enfatiza que Deus é principalmente percebido e conhecido no sofrimento. O Deus verdadeiro é aquele que se compadece. É o Deus que sofre com suas criaturas e que, de certa forma, é vítima do mal, juntamente com elas. Esta teodicéia não explica o sofrimento imerecido. Todavia, transforma a visão sobre o sofrimento, pois o sofrer por um propósito justo é fazer a vontade de Deus e torná-lo conhecido. O sofrimento é a grande oportunidade para Deus e o homem entrarem em comunhão e colaboração. O sofrimento é transcendido e aquilo que parecia ser o pior é visto como a ocasião da mais intensa experiência religiosa.

A Rejeição da Resposta Cristã

No panorama da história, muitas correntes de pensamento apresentaram soluções alternativas para o problema, sem a intenção de justificar a Deus. Vamos apresentar um resumo daquelas posições filosóficas que tratam o problema do mal com um enfoque distinto do teísmo ou da teodicéia. As diversas propostas de resolução das relações entre o divino e o mal serão delineadas, destacando os seus principais representantes.

Alguns negam a existência do Mal

O Mal é visto como ilusão. Essa perspectiva é encontrada em conceitos monistas e panteístas. A tensão entre Deus e o mal é resolvida pela negação do mal. A cosmovisão hindu (ensinos Vedanta), Zenão (336-274 a.C.) e Spinoza (1632-1677) são exemplos desta perspectiva. Spinoza, por exemplo, chega a afirmar que o mundo parece cheio de mal apenas porque é visto de uma perspectiva humana estreita e errônea. Da perspectiva divina, porém, o mundo forma um todo necessário e perfeito. A dificuldade dessa posição é provar que os sentidos não merecem confiança alguma, visto que eles apontam para a realidade objetiva do mal. Além disso, os defensores dessa perspectiva precisam responder por que tal “ilusão” é tão comum e se mostra persistente na história humana? Que conhecimentos nos levam a tal conclusão? Seria tal conclusão uma ilusão também?

Alguns Negam a Existência de Deus

Essa é a perspectiva do ateísmo. É a negação da realidade de Deus. Os ateus opõem-se diretamente aos “ilusionistas”. Afirmam a realidade do mal com base nos sentidos e negam a realidade de Deus, cuja existência é incompatível com o mal. O pensamento ateísta sistematizado desenvolveu-se nos últimos dois séculos de história da filosofia ocidental, fruto do racionalismo. Os principais argumentos ateístas são: 1) Deus e o mal são mutuamente excludentes: se o mal existe, logo Deus não pode existir; 2) Se Deus existisse, ele não seria Deus propriamente dito, pois carece de bondade por permitir o mal; 3) Se Deus existisse ele não seria Deus propriamente dito, pois carece de poder visto que permite o mal.
Essa perspectiva é encontrada no budismo que pressupõe uma alienação entre o homem e o universo. O universo é impessoal e opera por causa e efeito. Não existe a figura de Deus, o sofrimento decorre da vontade humana e a sua solução se dá de maneira individual e existencial. Por isso o budista anseia pelo estado impessoal no nirvana. Esse pessimismo também encontra exemplos no pensamento grego clássico. Hegesias de Cirenaica ensinava ser a vida sem valor e que o único bem, que nunca seria alcançado, seria o prazer. Todavia esse pessimismo não marca o pensamento helênico propriamente dito que, de modo geral, acreditava na vitória sobre o mal por meio da virtude e da sabedoria.
É no pensamento europeu contemporâneo que encontraremos um exemplos dessa posição: Arthur Schopenhauer (1788-1860). Há também filósofos existencialistas ateus que enfatizam o absurdo da realidade, vendo o homem como um ser sem saída. Os principais são Jean Paul Sartre (1905-1980) e Albert Camus (1913-1960), famoso por sua obra “A Peste”. Schopenhauer cria que a realidade última é a cega vontade irracional de viver que a todos impulsiona. Tal vontade transcendental é essencialmente má, particularmente pelo fato de haver criado o nosso corpo com desejos que não podem ser satisfeitos. O sofrimento é causado pelo desejo incessante que nunca pode ser plenamente atendido. A dor e a ilusão são inevitáveis. A maior tragédia humana é o fato de ter o homem nascido.
Entre o pensamento judaico-cristão e as alegações ateístas têm surgido propostas problemáticas e incompletes que merecem ser mencionadas.
1. Negação da bondade de Deus. Deus pode ser poderoso, mas é visto como mau e comprometido com a desgraça e o sofrimento.
2. Negação do poder de intervenção de Deus. O bem não tem poder infinito sobre o mal. Essa é a posição deísta, da teologia do processo e do teísmo aberto. Fundamenta-se na realidade da persistência do mal. O bem parece não ter poder para destruí-lo.
3. Negação do poder original de Deus. Deus foi obrigado a criar um mundo mau. Deus, sendo limitado, tinha necessidade de criar um mundo e não pode impedir que este fosse mau.
4. Negação da onisciência divina. Deus não podia prever o mal. Deus é criador, e justo, mas não é plenamente onisciente.
5. Negação da imanência divina. Deus não pode ser avaliado pelos nossos padrões morais. Desse modo não é necessário defender sua conduta. Suas ações estão numa esfera de atuação que não podemos julgar.
A verdade é que o Problema do Mal permanece como a questão mais difícil da história da teologia. As outras tentativas de resolve-lo parecem apenas tê-lo complicado ainda mais. A esperança cristã continua afirmando uma mistura das teodicéias aqui apresentadas. Mas a sua essência ecoa por toda a história: Deus permite o mal e o utiliza para fins bons, e Deus permite o mal para produzir um bem maior. Por isso, vivemos pela fé e sempre na esperança.

Autor: Pr. Luis A.T. Sayão

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