A VERDADE (Questão Primeira) São Tomás de Aquino

ARTIGO PRIMEIRO
Que é a verdade?
I — TESE: PARECERIA QUE O VERDADEIRO É EXATAMENTE O MESMO QUE O ENTE.
1. Diz Agostinho no livro dos Solilóquios (capítulo V) que “o verdadeiro é aquilo que é”.
Ora, aquilo que é, outra coisa não é senão o ente. Logo, o verdadeiro é exatamente a mesma coisa que o ente.
2. Todavia, objetar-se-á que o verdadeiro e o ente se equivalem, sim, segundo os supostos, diversificando-se, porém, segundo o conceito. A isto se responderá: o conceito de cada coisa é aquilo que é significado ou expresso pela sua definição.
Ora, aquilo que é, é designado por
Agostinho (na passagem citada) como a definição do verdadeiro, depois de rejeitadas algumas outras definições. Logo, visto que tanto o verdadeiro como o ente concordam no fato de serem ambos “aquilo que é”, parece que ambos se identificam no conceito.
3. Além disso, todas as coisas que se diferenciam pelo conceito estão uma para a outra de tal modo, que uma delas se pode compreender sem a outra. Daí que Boécio, no livro Sobre as Semanas, afirma que se pode compreender que Deus é ou existe, mesmo que a inteligência separe
d’Ele a sua bondade. Ora, o ente de forma alguma pode ser compreendido, se dele se separar o verdadeiro, visto que o ente se compreende como ente pelo fato de ser verdadeiro. Logo, o verdadeiro e o ente não se diferenciam quanto ao conceito.
4. Além disso, se o verdadeiro não for a mesma coisa que o ente, necessariamente será uma disposição do ente. Ora, o verdadeiro não pode ser uma disposição do ente.
Não é uma disposição que corrompe totalmente o ente, pois do contrário seguiria o seguinte: é verdadeiro, logo é um não-ente, da mesma forma como se impõe a conclusão: este homem está morto, logo não é mais um homem. Tampouco o verdadeiro é uma disposição que
diminua o ente ou tire algo dele, pois do contrário não seguiria o seguinte: é verdadeiro, logo é ente, da mesma forma como não procede dizer: os dentes dele são brancos, logo ele é branco.
Tampouco o verdadeiro é uma disposição que limite ou especifique o ente, pois, se o fora o verdadeiro não seria conversível com o ente. Por conseguinte, o verdadeiro e o ente são exatamente a mesma coisa.
5. Além disso, aquelas coisas cuja disposição é a mesma se equivalem. Ora, o verdadeiro e o ente têm a mesma disposição. Logo, são a mesma coisa. Com efeito, afirma-se no livro II da Metafísica (Aristóteles, texto 4): “A disposição de uma coisa no ser é como a sua disposição na
verdade”. Logo, o verdadeiro e o ente se equivalem completamente.
6. Além disso, todas as coisas que não se equivalem, diferem entre si de alguma forma.
Ora, o verdadeiro e o ente não diferem entre si de maneira alguma. Não diferem pela essência, visto que o ente, pela sua própria natureza, é verdadeiro. Tampouco se diversificam em virtude de outras diferenças, pois teriam que concordar em algum gênero. Logo, o verdadeiro e o ente se equivalem totalmente.
7. Além disso, se o verdadeiro e o ente não fossem exatamente a mesma coisa, necessariamente o verdadeiro acrescentaria alguma coisa ao ente. Isto é evidenciado pelo Filósofo (Aristóteles), que no livro IV da Metafísica (comentário 27) afirma: “Ao definirmos o verdadeiro,
dizemos ser ele aquilo que é; ou, então, não ser ele aquilo que não é”. Portanto, o verdadeiro inclui tanto o ente como o não-ente. Logo, o verdadeiro nada acrescenta ao ente, e conseqüentemente parece identificar-se totalmente com ele.

Extrato do Livro – Os Pensadores São Tomás e Dante

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